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Darwin explica muito. Explica tanto que deixaria Freud com inveja. Para revelar como funciona nossa mente, o psicólogo Steven Pinker recorre à teoria da evolução. Ele assegura que, em nosso cotidiano, as nossas relações pessoais e nossos desejos são frutos de adaptações que o cérebro sofreu ao longo de milhares de anos. Todos os nossos desejos e instintos se refletem também em nossa maneira insustentável de consumir.

O instinto sexual é responsável por características marcantes do bicho-homem moderno. Darwin percebeu que os machos competem pela fêmea que, por sua vez, seleciona criteriosamente seu parceiro. Ele só não conseguiu entender o porquê desta ordem, e não o contrário. A teoria do investimento paterno, segundo Pinker, explica a charada. Funciona assim: o sexo que investe mais tem o privilégio de escolha. O que investe menos, briga pra ser escolhido. Não é difícil provar que meses de enjôos, explosões hormonais, dores, e uma vida inteira de preocupações maternas constituem um investimento muito maior do que alguns minutos de prazer masculino. As exceções do reino animal confirmam a regra. Em algumas espécies de aves, por exemplo, os machos chocam os ovos e alimentam os filhotes. Nessas espécies, os papéis se invertem. As fêmeas são agressivas e cortejam os machos para serem escolhidas.

Os homens são aproximadamente 15% maiores que as mulheres, o que indica que houve disputa física entre machos em nossa história evolutiva. Toda essa disputa serviu para levar os genes adiante. Na maioria dos mamíferos, a fecundação ocorre dentro do corpo da fêmea. Na época dos coletores-caçadores - nossos ancestrais - os casamentos não eram lá muito estáveis. Também não havia laboratórios de análise de DNA muito sofisticados, de modo que o macho nunca tinha certeza de que o recém-nascido carinhosamente abraçado no colo da mãe era realmente seu filho. Por isso, seu corpo e seu cérebro evoluíram para garantir a propagação de seus genes. O corpo se adaptou para produzir milhares de espermatozóides que eram capazes de sobreviver vários dias dentro da fêmea. E para aumentar as chances de reprodução, o cérebro masculino evoluiu com um software de caça às fêmeas. Quanto mais, melhor, pois a quantidade e variedade aumentam as chances de deixar um herdeiro.

Uma mulher bonita, entretanto, nunca enfrentou escassez de pretendentes. Por isso, sempre teve a chance de selecionar muito bem seus parceiros. Como tem certeza de que o filho que carrega no ventre é seu, não necessita produzir milhões de óvulos mensalmente, tampouco precisa espalhá-los pelos cantos para possibilitar sua fertilização. Para garantir a propagação de seus genes, os canalhas, digo, os homens, estão geneticamente programados a buscar variedade e quantidade. As mulheres, por outro lado, só compartilham metade dos seus genes com quem possa lhe garantir sucesso na empreitada, pois não seria nada agradável, após 9 meses de sofrimento, dar a luz a uma criança frágil, com pouca probabilidade de chegar à vida adulta.

Essa novela da vida real se repete nos dias de hoje, mas de maneira mais sutil. Sabe-se que os homens traem mais do que as mulheres, mas eles não saem se estapeando nas ruas, tentando se mostrar mais aptos ao acasalamento. Nossas mentes usam artifícios mais perspicazes. Já que não posso me mostrar mais forte ou inteligente, posso comprar um celular novo. Talvez uma roupa da moda esconda aquele pneuzinho comprometedor. Meu carrão está querendo dizer: meu dono tem capacidade, é inteligente, forte e rico, portanto, tem bons genes para seu óvulo. As interesseiras, então, escolhem um companheiro que possa ajudá-la na tarefa de criar os filhos, seja dando carinho, ou bens materiais.

A busca por status serve tanto para chamar a atenção do sexo oposto, quanto para dizer que se é superior ao concorrente. E em nossa sociedade moderna, status significa consumo. Os publicitários sabem disso. Não compramos porque precisamos, mas porque queremos instintivamente nos destacar em nosso meio. E o consumo em excesso significa, em última análise, abusar da natureza. Ok, a explicação é simplista, mas a realidade geralmente não é tão complexa. Diariamente, nos vemos diante de escolhas entre fazer o certo (geralmente difícil) e o errado (fácil ou vantajoso). Vou de carro ou transporte público? Saio do banho agora, ou daqui a 5 minutos? Compro um sapato novo, ou continuo usando aquele que ainda dá para o gasto? É extremamente comum deixarmos a emoção vencer a razão. Os chocólatras que o digam.

Evidentemente, os problemas da humanidade não se resumem aos relacionamentos homem- mulher, instintos etc, mas as pessoas subestimam a influência que a carga genética tem sobre nosso cotidiano. Felizmente, nem todos os homens são canalhas e nem todas as mulheres interesseiras. Somos diferentes dos animais justamente por nossa capacidade reprimir os desejos e de distinguir o certo do errado. Essa capacidade garantiu que nossa espécie dominasse o planeta. Mas temos que admitir que tanto Sigmund Freud quanto Charles Darwin revolucionaram a humanidade com uma idéia semelhante: a de que somos movidos por nosso inconsciente. A julgar pelo rumo que o planeta está tomando, alguém duvida?