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O bicho homem brinca tanto com a natureza que depois não sabe de onde vem o golpe. Em toda essa história de gripe, o homem tem mais culpa que o coitado do porco. O surgimento da famigerada gripe A (H1N1) é mais um reflexo das atividades humanas que geralmente desrespeitam a ordem natural das coisas.

Os porcos, juntamente com frangos e bois, são nossas fontes de proteína mais comuns. Sempre há uma lanchonete pronta para servir um X-Filé em qualquer esquina do mundo, salvo, é claro, quando existem limitações impostas pela economia, cultura ou religião. Isso não ocorre por acaso, ou simplesmente porque a carne é mais saborosa. Pelo menos, não só por isso.

Vamos voltar um pouco no tempo. Os mais desatentos podem nem desconfiar, mas os ta-ta-taravós desses animais já foram selvagens. Eles, os ta-ta-taravós, tinham algumas características que nos agradaram e propiciaram sua domesticação. Além de ter bastante carne no corpo, eram dóceis e, portanto, fáceis de domar. Comparados a outros animais, era simples controlar sua reprodução. Seu crescimento era mais rápido, e isso nos poupava tempo e energia.

Até certo momento da história, no início da domesticação, as leis de Darwin tinham atuado sozinhas. Foi como um presente da natureza. A partir dali, o homem passou a interferir no processo. A seleção natural deu lugar à seleção artificial. Assim, nem sempre o mais bem adaptado ao ambiente deixava herdeiros, pois o mais carnudo tinha sempre preferência. O processo de domesticação deve ter ocorrido por tentativa e erro e certamente demorou um bom tempo até que fosse inteiramente dominado. Hoje, a produção ocorre em escala. Os bichinhos geralmente ficam amontoados em espaços minúsculos, comendo o dia inteiro como condenados que, de fato, são.

Ocorre que a seleção natural proposta por Darwin não é exclusividade dos grandes organismos. Bactérias e vírus também passaram, ao longo do tempo, pelo processo de evolução, que permite que alguns indivíduos diferenciados por mutação genética levem vantagem reprodutiva. Aqueles vírus mais abatidos, com problemas existenciais, não deixam descendentes. Sobram só os fortes e mais capazes de encontrar um hospedeiro que lhes garanta algumas horas de vida. Uma porção incalculável desses microorganismos pode transmitir enfermidades aos organismos mais complexos como nós e os porcos.

Aliás, é muito comum uma doença que atinge humanos ter origem nos animais. Após sucessivas reproduções e mutações genéticas, alguns germes podem adquirir características que se adaptam melhor ao hospedeiro humano. Podem, então, ser transmitidos pelo ar, por contato físico, pela ingestão de carnes, por um hospedeiro intermediário, como uma mosca, e até de outras formas mais vis.
 
Mas existem diferenças importantes no processo evolutivo de um germe se comparado a organismos mais complexos. Ao passo que uma geração de humanos é contada em anos, um único vírus pode produzir milhões de descendentes em apenas algumas horas. Isso implica que as mutações nesses pequenos seres ocorrem de forma muito mais rápida em tempo cronológico.

O homem adquiriu hábitos higiênicos ao longo do tempo que impedem ou diminuem a disseminação de enfermidades. No entanto, não existem máscaras para galinhas. Aos chiqueiros não foram acoplados recipientes com álcool gel. Vaca não usa sapato. Ao produzir proteína animal em larga escala, o homem aprendeu a controlar os descendentes desses e outros bichos de modo que tivessem as características que mais lhe conviesse. Contudo, pouco fez para dominar a reprodução dos organismos invisíveis. Ao contrário, favoreceu que elas ocorressem de forma descontrolada. Um vírus encontra numa granja o ambiente propício para se reproduzir e se diferenciar até encontrar uma forma que ameace a nossa saúde. Confinar os porcos em espaço diminuto favorece não só a multiplicação de vírus e bactérias, mas sua transmissão aos humanos.

Para quem ainda não percebeu onde pretendo chegar, vou concluir de forma mais explícita. O Homo sapiens contribuiu intensamente para o surgimento de doenças como o gripe aviária, gripe suína e mal da vaca louca (só para citar as mais conhecidas). As duas primeiras são transmitidas por vírus e se disseminaram a partir de criadouros. O mal da vaca louca, um pouco diferente, é uma anomalia genética: uma proteína patogênica que pode ser adquirida inclusive por meio do uso de hormônios e transmitida pelo consumo da carne. Uso de hormônios? Qualquer semelhança com o que acontece por aí não é mera coincidência.

Esses três exemplos citados provocaram relativamente poucas mortes de humanos. No entanto, independentemente do nível de ameaça, causaram grande estrago socioeconômico. Mas não foram maldades divinas. Foram consequência da evolução não-natural provocada pelo homem, mesmo que sem a intenção explícita.

Por essa e muitas outras razões, pregamos que qualquer intervenção na natureza tem de ser feita com extremo cuidado, o que muitas pessoas geralmente não entendem. Também por isso, é tão importante ter áreas intactas preservadas, preferencialmente sob forma de unidades de conservação. A natureza precisa de uma reserva de salvaguarda. Nós precisamos! Hoje, um planeta com 6 bilhões de pessoas não pode abrir mão da domesticação de plantas e animais. Se voltássemos todos a ser coletores e caçadores, o mundo não agüentaria. No entanto, como em tudo na vida, é preciso ter em mente as consequências de nossos atos. De outro modo, o golpe – que não sabemos de onde vem – pode nos ferir gravemente.